terça-feira, maio 08, 2012

Reacções

Preocupava-me e sempre me preocupou a reacção que os meus teriam na altura da morte do meu pai. Tinha medo, receio e tentava pensar em como seria.....Estive imenso tempo a pensar que deveria ir á escola falar apesar de já saberem da doença, consegui finalmente ir um dia à hora do almoço......3 dias só....antes do meu ir se ir embora!

A Professora do Kiko comentou que ele pouco falava, que disse que o avô estava doente, que tinha partido a perna e pouco mais! Expliquei toda a situação e o que iria acontecer, pedi-lhe cuidado e que falassem do tema sem haver tabus, pois na nossa sociedade a morte é tabu mas a normalidade com que se fala destes temas nos países Asiáticos....gostaria eu de falar assim da morte e toda esta vida além vida!

Antecipando a história e falando já do final.....na madrugada de dia 15, ou seja quarta feira de noite, após um jantar de primas, fui para casa e às 2.00 da manhã o meu Pai ligou-me, eu ouvia ao longe o telefone, guardado na minha carteira perto da entrada de casa, saltei e tipo furacão corri para o telefone.

"Filha, o Pedro(enfermeiro) acha que devemos ir ao Hospital pois estou a ficar desidratado e já estou a vomitar há muito tempo!"
Sim Pai, vou já para aí, não te preocupes!

Desnorteada vesti-me, tipo barata tonta, pensei que ainda bem que já tinha deixado a roupa dos pequenos pronta para a escola, deixo sempre no dia anterior e ainda bem que o fiz, acendi a luz do quarto e o miguel acordou, contei-lhe e ele compreendeu.....

Saí, noite fora, fresca mas eu com calores, liguei a uma amiga, deixei-lhe mensagem...."Estou a ir buscar o meu pai, caminhamos para o hospital"

Ainda longe de saber o final....cheguei lá a casa, o meu pai como sempre tentava mostrar-se calmo, bem, feliz, tranquilo, forte e tudo por nós, por mim!

Chamei o INEM, fomos de ambulancia para o Hospital, o Pedro veio também....obrigada por tanta amizade, tantas horas ali passadas ao lado do meu querido Pai.

Mais uma vez um check in bastante demorado, eu dizia que o meu pai se sentia com falta de ar mas nem assim vinha alguém fazer a "entrada" da pessoa doente! Infelizmente compete-me dizer que é pena que nada funcione bem neste País! Uma só enfermeira para 3 ambulâncias que chegavam ao mesmo tempo......e ela bem gritava "Ó Nuno" " Ó Nuno" e viemos a descobrir, mutos minutos depois que o Nuno dormia.....lá dentro!!!! Ela resmungava e dizia: Nunca mais me faças uma coisa destas Ó nuno!!!!! Valha-me alguém normal aqui no meio!

Esperamos e o meu pai lá foi encaminhado para um médico que mais parecia um tolo saído de uma caderneta de cromos, aqueles raros, um médico de origens de leste, romenas ou polacas, antipático e mau falador da nossa língua, rude, austero, rudimentar e muito mas muito pouco humano.

Estavamos 3 raparigas no corredor....aquela hora que já deveriam ser umas 4 da manhã..... Ouvia a voz do meu pai e a do Pedro que por ser enfermeiro podia estar ao aldo do meu pai, mesmo não trabalhando ali, e conversavam o que me aliviava, eu sentada no chão do corredor, esperava, rezava e não fazia ideia do que se passava, do que seria, do que era e do que me esperava.

Veio o médico, o tal de bengala, gordo e alto, sotaque típico daqueles países de leste......não quis saber de mim, bruto disse: " SAIA" e eu saí.....sob pena de o espancar!!!!

Passou o tempo e alguns momentos apagaram-se-me...tais como a passagem do meu pai para outro local, de cuidados. Veio uma médica, novinha dizer que eram já 5.30 ou 6 e que o meu pai teria alta, já não havia sangue no dreno e nada no estômago , as análises davam tudo bem e não havia ainda nada no fígado!

Olhava pelo pano....vi-a o meu pai, mandava-lhe beijos e olhava-o com tanta saudade, carinho e a minha vontade era andar aqueles 3 ou 4 metros e estar ali, colada a ele, abraça-lo, fazê-lo sentir bem e dizer-lhe que rapidamente iriamos para casa!!!! Consegui entrar, dar-lhe um beijinho e dizer que já íamos embora....tranquilizou-se!

7.30 - Mandaram-nos sair pois até as 9.30 há mudanças de turno e por isso teriamos de estar fora do hospital.....saí....fui comer qualquer coisa e disse ao Pedro que fosse embora, eam já 8.30 e ele precisava de descansar (tal como eu) e fiquei de lhe dar notícias.

A hora de entrada era as 9.30. Ainda não tinha avisado ninguém, a minha irmã dormia e qual era a necessidade de eu a acordar sem saber o que lhe havia de dizer..... alei com uma amiga, chorei e mostrei-me por vezes em pânico.

AS 9.29 já eu estava colada à porta para entrar e ás 9.30 abri a porta, corri para ver o meu pai e.....entrei em choque eu também....ali sozinha, senti-me desabar......olhei o meu pai, levemente desfigurado, com os braços presos......olhei-o para o tranquilizar e senti que ele me via mas não me olhava ou ao contrário, olhava-me mas eu não sabia se me via, se sabia que era eu.....

Tentei chamar o médico, pedir-lhe para lá ir, o meu pai estava destapado nos pés e tinha os pés roxos......vi o médico, um santo que apareceu de lá de cima,e nviado por quem tinha de enviar uma boa alma, um bom médico, humano, querido, simpático e conhecedor.....

"Sr Dr, desculpe, o meu pai está ali, mandaram-me sair as 7.30, estou cá desde as 2.00. Deixa-me ir ao meu pai tapar-lhe os pés, estão roxos! Deixe-me ir dar-lhe um beijinho.....
"Há quanto tempo tem assim os pés? ! E eu disse: desde agora, quando saí estava bem....
o médico olhou-me e eu percebi.....disse-me: Vamos fazer um Tac ao seu pai, tememos que esteja a fazer uma embolia pulmonar, teve como que um choque entre o tempo que estee lá fora, está em choque e vamos ver com o Tac o que se passa e depois decidir o que vamos fazer, temos duas opções, bla bla bla bla bla, deixei de o ouvir.....ainda nem tinha percebido que uma embolia pulmonar é ma morte anunciada....só lhe disse: Sr Dr vou ligar à minha irmã e ela vem aqui ter se o Sr Dr a deixar entrar e as duas decidiremos, o que não queremos é que o meu pai sofra!

Ligue, chorei e pedi à minha irmã que viesse....rapido....liguei ao meu marido, que viesse, rapido e os 4, o meu cunhado, a minha irmã, o meu marido e eu ali ficamos.....a minha amiga de todos estes meses apareceu mais tarde.....uma alma gémea!

Avisei a minha irmã que o meu pai estava levemente (muito) desfigurado!!!!! Eu já tinha estado com o meu pai, fizlhe mimos e sentia que ele se aliviava, só tinha medo de dormir e queria ir para casa, rapido, só pedia para ir embora!!!!!

Ali pemanecemos até se saber do Tac......não havia embolia pulmonar mas desenvolveu-se tudo tão rapido, uma rápida obstrução pulmonar....falta de ar e tudo podia piorar.....médicos, opiniões e as 16h disseram-nos que tinha alta desde que com oxigénio 24h dia. Assim foi, a procura do oxigénio para levar o meu pai para casa.

Enquanto ali estavamos o meu pai falava, quase não se entendia mas chamava pelo cão, perguntava quando íamos embora e disse que tinha fome, que queria um cachorro e 1 cerveja....disse-lhe que em casa tinha tudo isso......

Já estava há mais de 15 horas naquele hospital.....entrei com o corredor vazio e saí com o corredor atulhado de gente, de pessoas, de doentes e de figurantes!

A minha irmã e eu, a certa altura estavamos semopre as duas enquanto esperavamos as respostas dos médicos e estavamos as duas a dar mimos, o meu pai dava-nos a mão, pedia-nos mimos nas pernas, festas para não ficarem dormentes e mimos nele, nas mãos e juntou-nos, juntou-nos as mãos na cara dele e pediu que nos chegassemos, demos-lhe um beijinho e ele um a nós, não sabiamos que seria o último!!!!!! Disse-lhe que o adorava, disse-lhe que gosava muito dele e que em breve iriamos para casa, que não se preocupasse que lhe prometia que iriamos descansar para casa!

As 20.30 chegamos a casa finalmente, uma ambulancia levou o meu pai e nós de carro.

Eu já nem pensava direito, o meu cérebro de cansaço acho que parou......
Lá estava o Pedro à espera do meu pai.....subimo-lo para o quarto, o pedro deu-lhe um banho na cama, deixou-o fresquinho, limpinho, a cheirar bem e depois voltou pouco a pouco a ser o meu pai, menos desidratado e com menos efeitos da medicação.

Estava meio delirante, devia ser de tanta droga tomada e lembro-me de perguntar ao médico se fosse preciso dar alguma coisa para a agonia de não conseguir respirar o que faria? e ele disse: morfina, um comprmido de morfina....não foi preciso...

Eram 10.30 quandp chegou o Miguel e ficou lá para a minha irma e eu irmos jantar, fui ao quarto, deitei-me ao lado do meu pai, dei-lhe um monte de beijos, disse que o adorava e um até amanhã, descansa e dorme bem.....um enorme beijinho e...

Ficou o Miguel, o meu pai voltou a si e jantou um pouco do cachorro e bebeu 3 heineken de palhinha, bem divertido e bem disposto, falou da vitória do sporting que não era esperada e as 23.30 disse que ía dormir.

O Miguel ligou-me a dizer que o meu pai já estava bem e eu estava a acabar de jantar, fiquei mais aliviada....

Fui dormir e ás 6.00 ligou-me o Pedro com aquela frase que ninguém quer ouvir....."Bárbara, o seu pai.....faleceu"! Fiquei estática, levantei-me num salto.....como? porque? Tão rapido? Mas ao mesmo tempo olhei o céu e disse: Obrigada Deus por não teres feito o meu pai sofrer....obrigada!

Os miudos foram para a escola, eu fui para casa dos meus pais, os miudos estavam com o meu marido e com a minha amiga que os vestiu, os preparou....

O Francisco percebeu e na escola passou um dia triste, a professora explicou que o avô tinha morrido, era uma estrelinha.......e eu nesse dia quase nem os vi......só sábado....

De manhã fui buscar o Kiko a casa de uma amiga minha e conversei, ele ía brincar para casa de outro e falamos do avô, que tinha morrido, se ele queria ir dar um beijinho ao avô, disse que não, correu num jardim para apanhar uma flor e pediu-me que pusesse no avô...assim fiz! Olhava o céu e procurava a estrela.....

Na semana seguinte disse que havia amiguinhos que tb tinham estrelinhas e eu lá sorri e disse que agora também ele tinha uma estrelina no céu!

Perguntou-me porque Jesus leva assim as pessoas, se leva quando quer, chegou-lhe a sensação de medod e perder pai e mãe e avó....preocupou-se muito com a avó, dizia que agora quem tomava conta da avó era o cão, o Paco.....e dizia-me é? não é?
Medos e receios normais, que o Lourenço não associa ainda.....por ser pequeno.
Quis no domingo seguinte ir a casa da avó e ir ao quarto do avô, o Loureno entrou e perguntou pelo avô apontando logo para o céu, mas o Kiko quis ir certificar-se que o avô não estava.....já não estava ali!!!!!

Naquela manhã de dia 16 de Março......estava o meu pai no quarto, na cama dele deitado, tão sereno, dormia e ficou no sono, em paz, com dignidade e e ainda ali estive, deitei-me a seu lado, chorei....a saudade que iria sentir, que sinto, que sentirei, o seu cheiro, tanto o cheirei a ver se nunca esquecerei......

Vieram vestir o meu pai  deixaram-no ainda na caminha.....tão elegante como sempre foi, como sempre esteve.....sempre bem vestido, distinto! Olho verde e pele sardenta, pigmento ruivo!!!! Lindo!

Momentos dificeis e ainda dificeis de saber como os sinto......doi muito e a saudade doi ainda mais, pensar que nunca mais vou ver o meu pai doi e pensar que não vou ouvir a sua voz doi ainda mais......como tenho saudades daquela voz....Bárbara....barbarinha, filha? Minha querida....tantas palavras usava para me chamar!

E foi assim....mais um desbafo! e um Fim pois escrevei agora para mim, acho que massacrar já é demais! ih ih ih beijos doces como as amedoas desta minha amarga Páscoa!

8 comentários:

Maggie disse...

Olá Babrinha só agora dei com este teu post e reparo que há outros que ainda não li. Vou ler com toda a atenção.

Não sei o que é perder um Pai, felizmente ainda tenho o meu, mas percebo nas tuas palavras que faz falta, que fará sempre falta, tenha a idade que se tiver.
Desejo-te tudo de bom, e acredita que esteja ele onde estiver quererá ver-te mto feliz. Faz isso por ele!

Um beijinho
Maggie

apenas umas letras disse...

Olá. Lembro-me que no dia 24 de Dezembro ou dia 25 de Dezembro, estava eu na casa dos meus tios a passar o Natal no Marco de Canaveses ( finais dos anos 80, acho ) quando os meus Pais receberam um telefonema. Os tios, primos e a minha tia não me quiseram contar o que se passava. Só quando os meus Pais estavam a caminho do Porto é que eu soube. Em antes de saber, já tinha adivinhado que o meu tio-avô ( tinha cancro ) tinha falecido. Naquela altura, estava acamado em casa da minha prima ( sobrinha dele ). Lembro-me de chorar numa cama, quando soube. Sabes, ainda ontem ou ante-ontem falamos nisso, com a Dona Guida ( empregada muito querida que está connosco há 14 anos ), dado que a filha dela, tirou uma costela. A minha Mãe falou sobre o Tio Carlos. Esse tio avô trabalhava na Moagem Ceres ( em frente á estação de campanhã ) como empregado de escritório. Os Patrões da Moagem Ceres, pagaram todos os tratamentos ao meu falecido tio. Deram-lhe muita força. Fazes bem em falar nisso aos teus filhos, para eles se habituarem, mas com cuidado claro, porque as crianças sentem sempre falta dos avós. E tu, fazes bem em desabafar no blog. Vou-te dizer o que costumo dizer ás pessoas. As mortes são como o Amor ( refiro-me a mim que sou solteiro e já Amei ). Tens que tentar adormecer o sofrimento que vai dentro de ti, porque só assim é que ficarás melhor. Adormecer o sofrimento, não é esqueceres o teu Pai, porque nunca se esquece ninguém. Podemos adormecer o sofrimento dentro de nós, mas sem esquecer as pessoas. Eu lembro-me dos meus falecidos avós todas as semanas, mas o sofrimento já lá vai... beijos e um abraço. força!!!

apenas umas letras disse...

Olá. Lembro-me que no dia 24 de Dezembro ou dia 25 de Dezembro, estava eu na casa dos meus tios a passar o Natal no Marco de Canaveses ( finais dos anos 80, acho ) quando os meus Pais receberam um telefonema. Os tios, primos e a minha tia não me quiseram contar o que se passava. Só quando os meus Pais estavam a caminho do Porto é que eu soube. Em antes de saber, já tinha adivinhado que o meu tio-avô ( tinha cancro ) tinha falecido. Naquela altura, estava acamado em casa da minha prima ( sobrinha dele ). Lembro-me de chorar numa cama, quando soube. Sabes, ainda ontem ou ante-ontem falamos nisso, com a Dona Guida ( empregada muito querida que está connosco há 14 anos ), dado que a filha dela, tirou uma costela. A minha Mãe falou sobre o Tio Carlos. Esse tio avô trabalhava na Moagem Ceres ( em frente á estação de campanhã ) como empregado de escritório. Os Patrões da Moagem Ceres, pagaram todos os tratamentos ao meu falecido tio. Deram-lhe muita força. Fazes bem em falar nisso aos teus filhos, para eles se habituarem, mas com cuidado claro, porque as crianças sentem sempre falta dos avós. E tu, fazes bem em desabafar no blog. Vou-te dizer o que costumo dizer ás pessoas. As mortes são como o Amor ( refiro-me a mim que sou solteiro e já Amei ). Tens que tentar adormecer o sofrimento que vai dentro de ti, porque só assim é que ficarás melhor. Adormecer o sofrimento, não é esqueceres o teu Pai, porque nunca se esquece ninguém. Podemos adormecer o sofrimento dentro de nós, mas sem esquecer as pessoas. Eu lembro-me dos meus falecidos avós todas as semanas, mas o sofrimento já lá vai... beijos e um abraço. força!!!

Ana Paula disse...

Barbara é muito bom ler os teus posts, nota-se que estás feliz por teres dito e vivido tudo com o teu Pai em paz, podes crer que ele partiu feliz e tu nunca te vais arrepender do que não fizeste.

Um beijinho muito grandeeeeeeeee

Ana Paula

Glória disse...

Olá Bárbara,
Sei perfeitamente o que estás a passar. O meu pai também faleceu durante o sono, como o teu. Só com uma diferença, não nos despedimos, nada o fazia prever. Foi no Natal fez agora 1 ano. Estivemos todos juntos até ao jantar do dia 25 e às 7 da manhã, o tão malfadado telefonema. Temos o consolo de ter morrido, conforme pedia.

Um grande beijinho para ti, para os teus filhos e cuida bem da tua mãe, que vai precisar muito.

Glória

Marta Casal disse...

É impossível não chorar ao ler-te...revi-me em cada uma das tuas palavras...passaram-se 5 anos e continua a dor (e muito)...
És uma grande Mulher!!
E Ele estará sempre contigo (tu sabes!!).

beijinhos

Alexandra Guedes disse...

Amiga, já há algum tempo q não passava por aqui e fiquei muito emocionada ao ler estes teus últimos posts.
Deixo-te um beijinho e um xi-coração apertadinho...
Alexandra

Cris disse...

É comovente o teu relato... impossível conter as lágrimas, o nó na garganta...

Não imagino a tua dor... ao mesmo tempo acho reconfortante que o teu pai tenha partido sereno, em sua casa, sempre apoiado por quem mais amava e com o seu último desejo cumprido - o cachorro e a cerveja...

A ti, um bem-haja pela filha que és e por tudo o que proporcionáste ao teu pai. Apesar de todo o sofrimento estás serena e com a consciência de que tudo fizeste para que o teu pai partisse feliz e com o sentimento de dever cumprido.

Beijo grande.